Carnaval


O Carnaval da Bahia se caracteriza por ser uma festa da coletividade. Ela foi evoluindo da separação entre classes sociais - carnaval de rua e de clubes - para o momento de celebração de uma espécie de utopia de igualdade. É no carnaval que uma certa idéia de paraíso - tão cara ao primeiro momento da descoberta do Brasil, pelos portugueses - se torna concreta, a partir da construção social. É então que um povo que carrega um sangue misturado das três raças fundadoras da sua identidade mostra a melhor síntese possível dessa mistura. Porque nessa festa, todos os tons de pele e todas as proporções de mistura querem significar a grandeza desse encontro múltiplo.

O carnaval da Bahia, com dois milhões de pessoas que participam de uma programação de música e dança de praticamente uma semana, com uma duração diária de mais de 16 horas, é a expressão de uma cultura popular que adquire no tempo características de fenômeno mercadológico de grandeza inequívoca para a economia de Salvador e do estado da Bahia.

Em 1950, Dodô e Osmar criaram a "fobica" - um carro aberto, adaptado para a apresentação dos músicos. Está inventado o trio elétrico que será um marco na multiplicação do potencial de participação do público no carnaval.

Aos poucos, o som do trio elétrico vai se tornando a atração principal do carnaval da Bahia. Em 1969, a gravação de Caetano Veloso, da música de sua autoria, Atrás do Trio Elétrico, consagra definitivamente a antiga fobica (a essa altura transformada em caminhões que serviam de palco para grupos musicais maiores) como a marca mais forte do carnaval baiano.

Paralelamente, o carnaval dos blocos vai evoluindo em várias propostas estéticas e musicais diferenciadas, onde os afoxés mantinham suas raízes africanas com a puxada do ijexá, os blocos de classe média - que começam a crescer e se multiplicar - utilizam músicas de carnaval - a maioria do carnaval carioca-brasileiro, até que surgem os blocos-afro - numa evolução da proposta estética dos blocos de índio. Eles introduzem no carnaval algumas inovações fundamentais: desfile com temas e músicas compostas especialmente para a ocasião. Nesse período, o carnaval de rua começa a adquirir mais glamour e o elitismo do carnaval de clubes inicia certa retração.

Em pouco tempo, a organização cada vez melhor do desfile associada ao surgimento de novos cantores baianos, trazendo para o sucesso nas rádios e TV ritmos originalmente baianos, com o sucesso de Luiz Caldas, Sara Jane e do Chiclete com Banana, somando-se ainda à evolução do Ilê-Ayê e o surgimento do Olodum com presença contagiante na festa, vão transformar o carnaval de Salvador, em pouco tempo, no maior, mais longo, e mais itinerante show ao ar livre do mundo. A classe média e até as elites finalmente entregam os pontos: no final dos anos 80, os bailes de carnaval entram num processo de irreversível decadência e o carnaval de rua passa a ser a identidade coletiva do carnaval da Bahia.

No início dos anos noventa, o carnaval da Bahia já se consolidou como uma fábrica de talentos e artistas como os precursores Luis Caldas, a banda Chiclete com Banana, o Ilê-Ayê, Margareth Menezes e finalmente o Olodum levam o sucesso do carnaval para o mercado do disco e começam lentamente a abrir brechas no mercado nordestino e depois nacional da música.

Mas é no período 92/93 que o carnaval da Bahia vai se tornar responsável pelo maior sucesso no mercado da música brasileira: Daniela Mercury alcança o primeiro lugar nas rádios de todo o Brasil com o samba-reggae O Canto da Cidade, o seu show bate recordes de público do Oiapoque ao Chuí e a artista torna-se a primeira da nova música baiana a ter um especial sobre a sua música e carreira exibido numa emissora nacional, a Rede Globo. O sucesso espetacular de Daniela rompe de maneira radical com os preconceitos e barreiras que os grandes centros haviam imposto à música baiana de origem ligada ao nosso carnaval.

E é o seu grande sucesso no Brasil que vai transformar Daniela na principal artista do carnaval baiano. Tendo alcançado o estrelato depois de muito tempo conquistando espaço na Bahia, já tendo participado de vários carnavais.

Hoje Daniela é a atração do bloco Crocodilo, estrelando absoluta no circuito Barra-Ondina, criado como alternativa para ampliar a área do carnaval que já se encontrava superlotado no centro da cidade. Desde que Daniela passou a desfilar, em 1996, na Avenida à beira mar e criou o seu camarote na avenida do desfile, esse circuito passou a ser oficial no carnaval da Bahia e hoje atrai centenas de milhares de foliões, da mesma forma que o circuito antigo da Avenida Sete.